quarta-feira, 28 de abril de 2010

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"Porque há direito ao gritoentão eu grito" (Clarisse Lispector)
Excrucitante é tentar entender a infelicidade produzida a dois. Resolvemos em algum momento que seria isso: conjugar os verbos todos na primeira pessoa do plural. Reunir as afinidades minimizando as diferenças. Mas, no curso do tempo que nada perdoa, há silêncios profundos no lugar das palavras. Desatenções tomaram de assalto o território antes reservado aos carinhos, aos beijinhos, às juras de amor. A TV está sempre ligada no dia que era reservado ao cinema, ou ao parque, ou ao teatro, ou ao chopp ao ar livre, enquanto nos cercávamos de planos e flutuávamos na imaterialidade colorida dos sonhos de amor. E depois, a dor de estar só. A constatação da derrota: não conseguimos sair do singular e agora, aquilo que era "nós" se transforma na ditadura do "eu". E as palavras ferinas, humilhantes, destruidoras. E mais à frente os não olhares que revelam o terror de ver no outro (ironicamente "o eleito") um completo e absoluto estranho. Recomeçar "apesar de". Será possível? Tenho preferido o grito e não sei se verdadeiramente é possível reconstruir sobre ruínas.

Um comentário:

Isaac Melo disse...

Oi Belle,
bonito texto, é o poder das palavras, que em alguns momentos se submete apenas ao silêncio.

Um abração!