segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ata-me

Foto: George Portz


"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime."

(Álvaro de Campos - Tacabaria)

Ata-me no irreproduzível espaço-tempo-história de nós dois. E não me deixes partir quando raiar o dia. Permitas que me deite sobre ti e levante os olhos aos céus numa prece incontida, requerendo continuidade de mim mesma, porque hoje vejo que sou vento leste e terminei por desabar em reticentes ais. Ata-me entre teus doces olhos, prende-me na imensidão dos teus braços, acolhe minha tentativa torta de reinventar a ilusão que havia e ressuscita a espera, os pulos do coração aflito, as lágrimas encantadas a cada partida, os ensinamentos diários de espera e encanto e não deixes que finde o tempo de te dizer do amor. Restaura-me pura e amável como fui um dia e refaze todas as minhas crenças de futuro, porque repouso sobre a medíocre verdade de que nunca soube ser depois de ti.

7 comentários:

Guará Matos disse...

Sobre o texto do Álvaro de Campos, muitas pessoas vivem com máscara, se escondendo e criando personagens. Um dia isso cai e aí, o tempo passou e a infelicidade tomou conta.
Para ilustrar esse texto, nada melhor que "E Agora José?". Esse texto do Drummond espelha bem o que é isso.
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Sobre o seu texto, precisamos viver por nós. Não falo de egoismo e sim, de nos preocuparmos conosco! As vezes abrimos mão para um falso amor, repleto de intenções ruins.
Bjs.

Belle disse...

Querido, é isso aí: máscaras. Ficou parecendo não haver conexão entre um texto e outro? Explico: inventamos tantas fantasias pra tornar o ar mais respirável (inclusive amores), que quando nos damos conta, é tarde demais pra reatar com a realidade. Assim são os amores de que tenho ouvido falar com ares de eternidade e imprescindibilidade. Quando o coitado do "abandonado" descobre que está vivendo sem ele (o amor inventado), ainda assim quer crer que não conseguirá ver na vida nada além de cacos de vidro: como ostra que passa a vida fazendo pérolas que no final, nem será vista, porque o amor, na verdade, nunca esteve ali.
Beijoca.

Charlie B. disse...

Seria o amor de novo? Essa coisa de 4 letras tão avassaladora, bem, acho que no fim, sempre é pouco disso!

beijo,
Charlie B.

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Belle
O problema é esse, acostumar com a máscara. Quando se resolve tirá-la pode ser tarde demais, aí já se perdeu toda a identidade.
Beijos

Marcos Paulo disse...

Olá, Belle. Tudo certo?
Obrigado por sua visita. Estou te acompanhando ;)

Beijo grande.

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Que legal. Outra mineira e ainda do mesmo signo meu.
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Um poema forte do Álvaro. As máscaras do dia a dia, da hipocrisia, dos braços cruzados, do politicamente correto porque todo mundo tem que ser igual. Muito bom.Parabéns a ele. Quanto ao seu texto, também sublime, como e difícil nos desvencilhar da lembrança de alguém, de um amor pela metade, sabendo que isso nos faz mal. Parabéns pelo blog, show de blog. Vou seguí-la. Beijão

Older disse...

Agradeço a visita e o comentário, e realmente é assim, quando alguma pessoas resolvem tirar a máscara ela já modificou suas feições de tanto uso.
Bjs e boa semana.