quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sem saída.

“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
- Sim.”

(Clarisse Lispector)

Essa sensação que não consigo definir está despindo meu desejo às avessas, desfazendo os entendimentos sem citar as fontes pra me desmascarar: exigente, imperdoável, implacável na arte de querer mais e melhor. Como se tivesse a pretensão de ser perfeita. Como se os vãos na alma não me fizessem chorar, como se minhas próprias máscaras não estivessem realmente gastas, como se minhas sutilezas fossem menos vis que as demais. Descubro-me num beco sem saída. Já não sei dizer se sou franca ou cruel. Não sei se minhas palavras elevam os destroem. Nem se minhas pretensões conscientes são realmente demonstradas quando a verbalização é o meio que encontro pra dizer a que vim. Aquilo que eu desejo é justamente o que se desprende de mim sempre que me abro. E não sei responder, se me perguntarem, porque a franqueza me apetece a ponto de não ter limites pra ferir. O pior é que talvez isso seja somente egoísmo. Porque afinal, não posso ferir ninguém sem me sangrar. Talvez seja isso: ou salvo você ou me perco de mim.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ah, tá.


"Amar é como ter um pássaro pousado na mão.
Quem tem um pássaro na mão sabe que ele pode voar a qualquer momento."

Rubem Alves

Olha, eu quis te acalentar várias e várias vezes. Quis te pegar no colo como criança e descobrir teus medos e teus anseios, teus traumas, tuas reverberações. Eu quis profundamente entrar no teu mundo e sentar numa cadeira num canto lá de dentro pra te ajudar a organizar tua interminável lista de coisas a fazer com o que viveu. Tentei fervorosamente, mas o amor que não retorna seca, atrofia, morre. O meu aparentemente era utópico demais pra dar certo. Se alguém me dissesse um tempo atrás que passaria, eu diria entre lágrimas : ah, tá. Hoje sei que até o que sangra cura, até o que fere eleva, até o que frustra ensina, mesmo as dores mais agudas se vão. O que fica no lugar? Bem, isso envolve um buraco bem grande, tempo, doses de boa vontade, amizades, porres homéricos (como morfina) e um tanto de fé. Uma história pra outras estações.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ata-me

Foto: George Portz


"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime."

(Álvaro de Campos - Tacabaria)

Ata-me no irreproduzível espaço-tempo-história de nós dois. E não me deixes partir quando raiar o dia. Permitas que me deite sobre ti e levante os olhos aos céus numa prece incontida, requerendo continuidade de mim mesma, porque hoje vejo que sou vento leste e terminei por desabar em reticentes ais. Ata-me entre teus doces olhos, prende-me na imensidão dos teus braços, acolhe minha tentativa torta de reinventar a ilusão que havia e ressuscita a espera, os pulos do coração aflito, as lágrimas encantadas a cada partida, os ensinamentos diários de espera e encanto e não deixes que finde o tempo de te dizer do amor. Restaura-me pura e amável como fui um dia e refaze todas as minhas crenças de futuro, porque repouso sobre a medíocre verdade de que nunca soube ser depois de ti.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A pobreza não deveria ser uma sentença de vida


O anúncio fala por si. Resolvi divulgar porque há muita coisa que ultrapassa nossos próprios umbigos acontecendo por aí, e pra mim uma das mais graves, estapafúrdias e odiosas é a segregação social: aquela que separa seres humanos iguais (vida Declaração Universal dos Direitos Humanos) tendo por base conceitos inventados. Olhe nos olhos das pessoas que passarem pelo seu caminho hoje, por mais mal vestidas, mal cheirosas ou desdentadas que sejam: elas nasceram como você, com todas as infinitas possibilidades que você nasceu! Doe um sorriso àqueles que encontrar sem discriminar a cor, a posição, a aparência! Faça algo de concreto por alguém, sem aguardar que se alardeie sua enormidade aos quatro cantos. Seja gente! Ajude a salvar a solidariedade, o amor, a igualdade.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Leva-me


Em teus sonhos, teus olhos, teus braços. Leva-me. Quando pensares, chorares, sorrires, quando te cobrires de porvires, leva-me. E traga-me contigo nos maiores encantos, reconhece minha face surpresa nas grandes descobertas, nas maiores saudades e nos cataclismas. Prende tuas heras aos meus braços quando caires e lembra-te dos beijos de olhos fechados quando a esperança se apartar de ti e não mais puderes seguir adiante. Oro para que sejas incapaz de abandonar o amor, porque o amor sentido (ainda que conjugado no pretérito perfeito) basta a si mesmo e as marcas que deixa são suficientemente poderosas para acalentar corações absortos. Eleva-te. Busca-me. Leva-me.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pensando enquanto não escrevo nada


Estou cansado de frases feitas, e poesias de amor. Estou me redimindo dos meus atos passados, pensando no meu futuro. Agindo de forma eloqüente, a vida é só um risco, e nela só existem mudanças. Seria fácil dizer quem sou no momento, mas de que adiantaria? Amanhã já não seria mais nada. É bonito se identificar, é bonito ver o que somos, mas em um minuto deixamos de ser, e tudo se torna velho. Bom mesmo, é deixar que o silêncio responda por si só.

Hemerson F.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Pra relaxar


Do inominável naoehamor:


O amor não te dá uma vontade imensa de casar. O nome disso é noitada em Las Vegas. O amor é outra coisa.


P.S.: Vontade incrível de casar é uma coisa que só se tem uma vez. Já aproveitou a sua??? Eu estou sa-tis-fei-ta por essa encarnação e pelos séculos dos séculos, amém.

Hear me!

Descobertas




Há tanta poesia na dor que dizem por aí que ela vicia. De mãos dadas com a solidão (esse mistério personalíssimo que se encerra em algum lugar inacessível no de dentro), a dor induz à sensação inenarrável de se esvaziar para se preencher daquilo que falta. E o fenômeno há que ocorrer sem muita assistência técnica. Porque nem mesmo o amigo mais íntimo consegue trespassar seu peito aberto. E você perde muito, muito sangue mas perceberá brevemente que o coração não parou, você não morreu, apenas inaugurou mais um acesso ao salão dos seus sortidos e laboriosos limites e seus horizontes se alargam um tanto mais e você passa a se divertir com a efemeridade encoberta em cada começo. Eis que surge o mistério da fé. E da crueldade (algumas pessoas tendem a divertir-se daí em diante, subjugando incautos à mesma sensação). Autoconhecimento. Viagem lancinante.

terça-feira, 4 de maio de 2010



hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

Martha Medeiros - De cara lavada

Tô indo embora. Deixo aqui a quase certamente lúcida impressão de que fiz o melhor que pude com os recursos que tive. Procurei emendar meus defeitos com o último lançamento da super cola, mas há coisas irremediáveis, paciência. Tô seguindo outros rumos, arrumando outro prumo, inaugurando outro norte. Tô indo embora. Deixo as paredes vazias de mim, a cozinha das tardes de domingo sem cheiro de bolo de laranja, os dias sem as flores nos cantos da sala. Fica tudo certo: cada um com seus desejos, com seu futuro e com a própria cama pra arrumar. Estejamos certos, eu e o tempo, de que ir embora traz a doce oportunidade de reinventar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

??



"Porque há direito ao gritoentão eu grito" (Clarisse Lispector)
Excrucitante é tentar entender a infelicidade produzida a dois. Resolvemos em algum momento que seria isso: conjugar os verbos todos na primeira pessoa do plural. Reunir as afinidades minimizando as diferenças. Mas, no curso do tempo que nada perdoa, há silêncios profundos no lugar das palavras. Desatenções tomaram de assalto o território antes reservado aos carinhos, aos beijinhos, às juras de amor. A TV está sempre ligada no dia que era reservado ao cinema, ou ao parque, ou ao teatro, ou ao chopp ao ar livre, enquanto nos cercávamos de planos e flutuávamos na imaterialidade colorida dos sonhos de amor. E depois, a dor de estar só. A constatação da derrota: não conseguimos sair do singular e agora, aquilo que era "nós" se transforma na ditadura do "eu". E as palavras ferinas, humilhantes, destruidoras. E mais à frente os não olhares que revelam o terror de ver no outro (ironicamente "o eleito") um completo e absoluto estranho. Recomeçar "apesar de". Será possível? Tenho preferido o grito e não sei se verdadeiramente é possível reconstruir sobre ruínas.

terça-feira, 27 de abril de 2010

...



Então se esgotaram todas as tuas tentativas de superar as faltas. E tu choras. E sentes o gosto de chorar na boca. E de repente todo o teu corpo é tomado pela úmida rendição escrita nos olhos e tu te entregas ao cansaço de mil dias que vens disfarçando a tempos. Soluços como fortes rajadas tomam teus sentidos e teus olhos se cravam asperamente porque querias demais não sentir. Mas é mais forte que a vontade de parecer bem. Como se tua alma sitiada buscasse escape e na solidão dos nadas acumulados, se esvaisse em água. Admitindo humanidades.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Despertenço


Não me importo com seus insultos, seus reclames, suas interrogações. Eu já era minha antes da entrega e tornei a ser depois que você se foi. Estava com saudade de mim, porque não sabia onde andavam minhas cores e flores. E a liberdade é tão intensa que quase nem me lembro dos seus passos, das ordens feitas pra caber dentro do exato espaço dos dias, dos horários, das caras feias, das intervenções. Agora caibo onde queira estar e minhas entregas são plenas e meus planos, rá! Nem vinte e quatro horas. Escrevo pra lembrar de nós sim, e protejo seu nome em homenagem àquilo que era. Mas não adianta vir com regras, meu caro. Prenda-me se for capaz de deter minhas próprias intenções. Perdoe-me a franqueza, mas quem não quer agora sou eu.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Me, mim, comigo


P.S.: clique pra ampliar a imagem!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Descobertas de menina






Anita online baratésimos, chiquetésimos, delícia.










Lancóme Paris - o red libertine é leeeendo mas não tinha foto.

Refletindo


"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você"
Nietzsche (Além do Bem e do Mal)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Oblíqua

eu. você. coração. rouquidão. loucura. pasmaceira. nervosismo. rubor. pernas. paciência. mãos. olhos. aproximação. tremores. sorrisos. desejos. sonhos. cheiro. sabor. toque. quietude. você. eu. ardências. palpitações. quereres. paixão. insistência. estratégia. silêncio. tentativa. erro. dor. tempo. tempo. pausa. reencontro. beijo. calor. insensatez. pecado. púrpura. escarlate. fogos de artifício. pensamentos. dois. encontro. cintilância. saudade. pureza. calafrios. amor.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Chico

"Éramos nós perfeitos nós enquanto tu és laço frouxo,
tira as mãos de mim
põe as mãos em mim
e vê se a febre dele gravada em mim
te contagia um pouco"

terça-feira, 13 de abril de 2010

Dia internacional do beijo

Um beijo
Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!

...Tudo isso pelo encanto

Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

Vinícius de Moraes - Petrópolis, 18.03.1958